O Globo (Blog Sonar)
Entrevista: disputas no bolsonarismo não devem levar a um 'rompimento completo' do bloco, defende pesquisador
Yago Godoy
20/07/2026
Entrevista de Marcelo Alves dos Santos Junior, professor da PUC-Rio e diretor do Instituto Democracia em Xeque, ao blog Sonar — A Escuta das Redes, de O Globo. A conversa parte do livro As Vanguardas da Intervenção: O Extremismo Digital e o Ataque às Instituições Democráticas no Brasil (Editora Mauad X), lançado no mês anterior, no qual o pesquisador analisa as cisões internas e os discursos antidemocráticos que levaram ao 8 de janeiro de 2023 a partir de registros coletados nas redes sociais.
O argumento central é que o campo político que levou Jair Bolsonaro ao poder em 2018 nunca foi um bloco coeso: é formado por “subculturas políticas” — entendidas como práticas, repertórios e domínio de linguagem — que sempre estiveram em disputa pela hegemonia da extrema direita. “Muito embora tenda a se tratar o bolsonarismo como um grupo coeso, na verdade, eles sempre foram heterogêneos”, afirma. O pesquisador situa a origem dessa identidade no processo de impeachment de Dilma Rousseff, quando se formou uma identidade política negativa, depois organizada em torno da liderança de Bolsonaro.
Alves associa os rachas recentes à lógica das plataformas digitais e à economia da atenção. Segundo ele, esses atores “nascem nas plataformas digitais, ganham relevância nesse ambiente e conhecem profundamente as dinâmicas da economia da atenção” — e por isso as brigas públicas, com xingamentos, caricaturas e apelidos, cumprem função estratégica de disputa por visibilidade. São disputas reais por hegemonia, pondera, “mas que não necessariamente ou diretamente elas vão se transformar no rompimento completo desse bloco”.
A entrevista trata ainda da dificuldade de Flávio Bolsonaro em ocupar o papel do pai como fator de coesão, das críticas a Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro — que, na leitura do pesquisador, opera em uma lógica mais religiosa do que política e não se encaixa nas subculturas mapeadas no livro —, do cálculo dos atores sobre quando disputar a hegemonia do campo e do papel dos nichos militares nas redes entre 2014 e 2022.
Sobre o que faltou para o golpe dar certo, Alves aponta a ausência de organização orgânica e a instrumentalização do movimento: “Diferentes trechos do inquérito da Polícia Federal mostram como os militares de alta patente vinculados ao Palácio do Planalto estão direcionando os atos, imprimindo cartazes, definindo palavras-chave”. As condições políticas e institucionais, avalia, não sustentavam uma ação mais contundente das Forças Armadas, o que levou ao “ataque atabalhoado do 8 de janeiro”, executado como última cartada quando o novo governo já havia sido empossado.