Seminários Avançados III
Capitalismo digital, plataformização da mídia e crise epistêmica
Objetivos
Compreender o contexto político-econômico que condiciona a ascensão da crise epistêmica. Analisar as características dos sistemas midiáticos contemporâneos, particularmente, a plataformização como elemento que afeta as dinâmicas desinformacionais na sociedade. Identificar fatores sociais, culturais e econômicos subjacentes a comunidades epistêmicas antagonistas. Compreender as particularidades de sistemas sociotécnicos, políticas das tecnologias e aspectos materiais da produção e circulação de informação falsas, como mecanismos de recomendação, algoritmização da mídia e mecanismos de detecção de fake news. Revisar a bibliografia mais recente de estudos de caso empíricos sobre a conjuntura brasileira e internacional. Relacionar os desafios da crise epistêmica, mídias sociais e movimentos iliberais que influenciam retrocessos democráticos no Brasil e no mundo. Introduzir debates e proposições diversas sobre as possibilidades de regulação das plataformas digitais. Questionar criticamente o papel das infraestruturas de publicidade programática na criação de modelos financeiros que incentivam a produção de informações falsas. Analisar cenários de desafios para a democracia brasileira tendo em vista os riscos de integridade eleitoral e de suspeição ou não aceitação do resultado eleitoral.
Ementa
Discussão de temas que configurem perspectivas contemporâneas da problemática da representação, da produção e da experiência no campo da comunicação.
Programa
Quais são as condições para a massificação de informações falsas? Essa disciplina propõe uma análise da crise epistêmica por meio de uma perspectiva que relaciona o avanço do capitalismo digital e a plataformização da mídia. Crise epistêmica, desinformação e fake news. Capitalismo digital e condicionantes da desinformação. Plataformização das mídias. Materialidades da desinformação — Algoritmos, inteligência artificial e recomendação. Indústrias da desinformação: astroturfing, trabalho, publicidade. Segregação informacional: filtros bolha e polarização. Economia das informações falsas. Culturas da desinformação. Normas algorítmicas e vieses de desinformação. Desafios da recomendação no Youtube. Moderação de conteúdo. Plataformas alt-tech. Debates sobre a regulação da desinformação sob perspectiva comparada. Mídias sociais e democracia iliberal: desinformação e contextos eleitorais.
Avaliação
A avaliação será realizada levando em consideração três critérios: a) a leitura e participação nos debates da bibliografia recomendada durante as aulas; b) a submissão de um trabalho final articulando os conceitos e estudos de caso vistos na disciplina; e c) uma atividade final de troca de pareceres contendo sugestões e leituras construtivas de textos de colegas de sala.
Bibliografia principal
- BENNETT, W. Lance; LIVINGSTON, Steven. The Disinformation Age: Politics, Technology, and Disruptive Communication in the United States, 2021.
- BRAUN, Joshua A.; EKLUND, Jessica L. Fake news, real money: Ad tech platforms, profit-driven hoaxes, and the business of journalism. Digital Journalism, v. 7, n. 1, p. 1-21, 2019.
- BROWN, Wendy. In the ruins of neoliberalism: the rise of antidemocratic politics in the West. Columbia University Press, 2019.
- CAPLAN, Robyn; GILLESPIE, Tarleton. Tiered governance and demonetization: The shifting terms of labor and compensation in the platform economy. Social Media+ Society, v. 6, n. 2, 2020.
- CARLSON, Matt. Fake news as an informational moral panic. Information, Communication & Society, v. 23, n. 3, p. 374-388, 2020.
- DAHLGREN, Peter. Media, knowledge and trust: The deepening epistemic crisis of democracy. Javnost-The Public, v. 25, n. 1-2, p. 20-27, 2018.
- MOORE, Martin; TAMBINI, Damian (Ed.). Regulating Big tech: Policy responses to digital dominance. Oxford University Press, 2021.
- POELL, Thomas; NIEBORG, David; VAN DIJCK, José. Platformisation. Internet Policy Review, v. 8, n. 4, p. 1-13, 2019.
- SRNICEK, Nick. Platform capitalism. John Wiley & Sons, 2017.
- VAN DIJCK, José; POELL, Thomas; DE WAAL, Martijn. The platform society: Public values in a connective world. Oxford University Press, 2018.
Bibliografia complementar
- ALBUQUERQUE, Afonso; QUINAN, Rodrigo. Crise epistemológica e teorias da conspiração: o discurso anti-ciência do canal “Professor Terra Plana”. Revista Mídia e Cotidiano, v. 13, n. 3, p. 83-104, 2019.
- BOZARTH, Lia; BUDAK, Ceren. An Analysis of the Partnership between Retailers and Low-credibility News Publishers. Journal of Quantitative Description: Digital Media, v. 1, 2021.
- CHAGAS, Viktor. WhatsApp and Digital Astroturfing. International Journal of Communication, v. 16, p. 25, 2022.
- CLAYTON, Katherine et al. Real solutions for fake news? Political Behavior, v. 42, n. 4, p. 1073-1095, 2020.
- COROMINA, Oscar; MATAMOROS-FERNÁNDEZ, Ariadna; RIEDER, Bernhard. Follow the Money: a Large-scale Investigation of Monetization and Optimization on YouTube. AoIR Selected Papers of Internet Research, 2020.
- DE ALMEIDA FONSECA, Gregório; D’ANDRÉA, Carlos. Governança e mediações algorítmicas da plataforma YouTube durante a pandemia de COVID-19. Dispositiva, v. 9, n. 16, p. 6-26, 2020.
- DE BRITO D’ANDRÉA, Carlos Frederico; HENN, Ronaldo. Desinformação, plataformas, pandemia. Fronteiras-estudos midiáticos, v. 23, n. 2, 2021.
- DE KEULENAAR, Emillie; BURTON, Anthony Glyn; KISJES, Ivan. Deplatforming, demotion and folk theories of Big Tech persecution. Fronteiras-estudos midiáticos, v. 23, n. 2, p. 118-139, 2021.
- DE ZEEUW, Daniel et al. Tracing normiefication: A cross-platform analysis of the QAnon conspiracy theory. First Monday, 2020.
- DOS SANTOS, Marcelo Alves. Clones do YouTube: replataformização da irrealidade e infraestruturas de desinformação sobre a Covid-19. Fronteiras-estudos midiáticos, v. 23, n. 2, p. 140-159, 2021.
- GUESS, Andrew; NYHAN, Brendan; REIFLER, Jason. Selective exposure to misinformation. European Research Council, v. 9, n. 3, p. 4, 2018.
- HAIMSON, Oliver L. et al. Disproportionate removals and differing content moderation experiences. Proceedings of the ACM on Human-Computer Interaction, v. 5, n. CSCW2, p. 1-35, 2021.
- HELBERGER, Natali. The political power of platforms. Digital Journalism, v. 8, n. 6, p. 842-854, 2020.
- INNES, Helen; INNES, Martin. De-platforming disinformation. Information, Communication & Society, p. 1-19, 2021.
- LEWIS, Rebecca. “This is what the news won’t show you”: YouTube creators and the reactionary politics of micro-celebrity. Television & New Media, v. 21, n. 2, p. 201-217, 2020.
- LEWIS, Rebecca. Alternative influence: Broadcasting the reactionary right on YouTube. 2018.
- NAPOLI, Philip M. The platform beat: Algorithmic watchdogs in the disinformation age. European Journal of Communication, v. 36, n. 4, p. 376-390, 2021.
- NASCIMENTO, Leonardo Fernandes et al. Poder oracular e ecossistemas digitais de comunicação. Fronteiras-estudos midiáticos, v. 23, n. 2, p. 190-206, 2021.
- NOBLE, Safiya U. The logics of (digital) distortion. Interactions, v. 28, n. 6, p. 41-45, 2021.
- PEETERS, Stijn; WILLAERT, Tom. Telegram and Digital Methods. M/C Journal, v. 25, n. 1, 2022.
- REIS, Ruth; ZANETTI, Daniela; FRIZZERA, Luciano. Algoritmos e desinformação: O papel do YouTube no cenário político brasileiro. In: VIII Congresso da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política, 2019.
- TUTERS, Marc. A Prelude to Insurrection. Fast Capitalism, v. 18, n. 1, 2021.
- YESILADA, Muhsin; LEWANDOWSKY, Stephan. Systematic review: YouTube recommendations and problematic content. Internet Policy Review, v. 11, n. 1, p. 1-22, 2022.