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Professor Thales Lelo (UFMG) abre semestre de palestras no Condado Lab

Fernanda Fialho

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3 de setembro de 2026

Thales Lelo durante a palestra para o Condado Lab

O professor Thales Lelo, docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador no INCT-DSI, palestrou nesta sexta-feira (28) para o Condado Lab. A apresentação foi baseada no conteúdo do texto “Fostering artificial intelligence to face misinformation: Discourses and practices of automated fact-checking in Brazil”, publicado em 2024 pela Journalism & Mass Communication Quarterly.

O encontro aconteceu de forma remota e abriu a agenda de palestras do Condado Lab para o semestre. Na próxima reunião, o grupo receberá presencialmente a pesquisadora Emilie de Keulenaar, da Universidade de Groningen, na sexta-feira (04).

Antes de introduzir as questões que moldam o cenário atual da indústria, Lelo contextualizou o termo “fact-checking” sob a perspectiva histórica do processo de institucionalização da prática. De início, pontuou que a checagem de fatos não é um fenômeno recente na literatura e tampouco na prática jornalística, tendo surgido nos Estados Unidos no século XX com a criação de departamentos internos de checagem das informações apuradas, previamente à publicação. Antes revestido de pouca importância no processo, o fact-checking “moderno”, como descreve o professor, deixa de ser feito nos bastidores e passa a verificar a veracidade de declarações públicas.

A princípio, a prática de checagem de fatos ganha tração com a expansão das plataformas. Depois de eventos como o Brexit — a saída do Reino Unido da União Europeia — em 2016 e, no mesmo ano, as eleições estadunidenses das quais Donald Trump saiu vitorioso, a noção de desinformação tornou-se parte do debate público, com suspeitas de contaminação dos processos políticos. Nesse cenário, as plataformas digitais, pressionadas para regular o ambiente online, começaram a ter interesse em investir no trabalho profissional de checagem.

Em um diálogo entre o texto selecionado para a leitura e avanços na pesquisa em contínuo desenvolvimento sobre fact-checking, Lelo apresentou as dimensões da “captura infraestrutural” (Nechushtai, 2018; Kristensen e Hartley, 2023; Papaevangelou, 2024; Sjøvaag, Ferrer-Conill e Olsen, 2025 apud Lelo, 2026), conceito que se tornou central nos estudos do pesquisador para apreender o movimento de dependência das organizações de checagem de fatos em relação às plataformas digitais.

O evento-chave para compreender como o conceito se materializa na realidade é o fim do programa Third-Party Fact-Checking (3PFC) da Meta, em 2025, e sua consequente substituição pelo sistema de Notas da Comunidade. O encerramento da iniciativa, referência na agenda de enfrentamento à desinformação, marcou o início de uma série de mudanças na política da empresa, que incluíram a contratação de funcionários alinhados ao Partido Republicano e o afrouxamento nas políticas de moderação de conteúdo.

Lelo destaca o fato de que, mesmo após falas críticas de Mark Zuckerberg, dono da Meta, ao trabalho dos checadores, o movimento percebido no momento posterior à decisão de findar o programa foi o de diversas agências reivindicando o restabelecimento da parceria, com a sugestão de um modelo híbrido entre a checagem de fatos profissional e as Notas da Comunidade. Para o pesquisador, o comportamento demonstra o grau de dependência financeira das instituições em relação à plataforma.

O 3PFC indubitavelmente beneficiou a indústria de checagem, mas, de forma concomitante, criou as condições para a captura infraestrutural das agências em três dimensões, como explica Lelo. A primeira é a captura institucional, que se dá a partir do momento em que a checagem, como instituição, se confunde com o próprio funcionamento sistêmico das plataformas digitais. O professor entende que, nessa dinâmica, acontece uma “conversão institucional do trabalho de checagem a um serviço especializado de moderação para a Meta”.

A segunda dimensão é a captura econômica, em que o trabalho de checagem depende em grande parte do investimento e da divulgação das empresas de mídia. A terceira é a convergência editorial, em que as atividades do checador se alinham cada vez mais às expectativas da Meta e cada vez menos à sua própria deontologia.

Para o pesquisador, além da dependência das plataformas, a expansão do uso de ferramentas de inteligência artificial generativa (IAG) também provocou mudanças na indústria de checagem de fatos, mas não da maneira esperada em um primeiro momento. Com o incentivo financeiro de editais à automação, o fornecimento de recursos esbarrou em uma questão maior: a falta de equipes especializadas na tecnologia.

Além disso, a IAG também passou a ser utilizada na disseminação de desinformação. Isso fez com que, em vez de diminuir o trabalho de fact-checking, a nova tecnologia aumentasse o volume de demandas e a complexidade da checagem. A constante evolução dos modelos também exige uma atualização contínua por parte de quem os utiliza, o que recai novamente sobre a questão da carência de profissionais especializados.

Para Lelo, o desafio da indústria do fact-checking é estabelecer uma lógica de financiamento próprio, mas os caminhos são adversos, principalmente para a parcela do setor que funciona como agências alheias à grande mídia. Enquanto em veículos de grande circulação o sistema de checagem deve continuar ativo, até por uma questão de posicionamento editorial, projetos menores tendem a ter mais dificuldade de manter-se no atual ecossistema.