Carlos D’Andrea (PPGCOM/UFMG) fecha ciclo de palestras de setembro no Condado Lab
Giselia Amanyara
|7 de outubro de 2026

No dia 24 de setembro, o professor e pesquisador Carlos D’Andrea apresentou no Grupo de Pesquisa em Comunicação, Dados e Tecnologia (Condado Lab), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio, o trabalho Plataformas infraestruturais e dinâmicas desinformativas: apontamentos e desafios de pesquisa. O artigo foi publicado no livro Ciências da comunicação contra a desinformação, da Intercom, em 2023, e discute como as plataformas, aqui apresentadas como infraestruturais, reorganizam práticas socioeconômicas e exercem controle e poder em dinâmicas informacionais a partir do processamento e intercâmbio de dados.
Carlos D’Andrea é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFMG (PPGCOM/UFMG) e coordenador do grupo de pesquisa R-EST (Estudo Redes Sociotécnicas), que reúne pesquisadores interessados nas interfaces entre os estudos de mídia e internet, e os Estudos de Ciência e Tecnologia (Science and Technology Studies, ou STS). O grupo cobre a agenda de Estudos de Plataforma, Métodos Digitais, Estudos Críticos de Dados, Algoritmos e de Infraestruturas, em estudos empíricos sobre Twitter, Facebook, YouTube, Reddit, Uber e outras ambiências online, na busca por compreender os fenômenos sociopolíticos contemporâneos a partir das relações de poder imbricadas nas materialidades dos objetos técnicos e dos dispositivos midiáticos, assim como as práticas e os imaginários dos diferentes tipos de atores envolvidos.
D’Andrea explica que as infraestruturas “acontecem”, e que a pergunta a respeito delas não deve ser “o que é uma infraestrutura”, mas “quando”, pois se tornam importantes quando estão visíveis, ou quando deixam de funcionar. No entanto, a noção de infraestrutura ganha outra dimensão com a internet, visto que é instaurada uma nova ordem de estrutura organizadora da sociedade. É o que o professor chama de “virada infraestrutural”, observada nos Estudos de Comunicação e Mídia. Assim, o pesquisador conceitua as plataformas infraestruturais a partir da dimensão relacional que apresentam entre as múltiplas materialidades e práticas entre as quais se organizam relações cotidianas, e as descreve como as principais articuladoras dos ecossistemas online de serviços e trocas informacionais, que são difusas, mas também hierarquizadas.
Surgem, assim, as lógicas tecnoeconômicas das plataformas infraestruturais e seus monopólios, o que se dá especialmente através da descentralização de serviços e da integração técnica em uma única empresa ou sistema. Nas palavras de D’Andrea, trata-se de uma combinação de descentralização de poder da mídia pela internet e redes sociais, seguida de uma recentralização de poder por dados nas plataformas e Big Techs. Isso é reforçado com o avanço da mídia programática, ou propaganda de vigilância (Crain, 2019), que pode ser pensada como uma infraestrutura fundamental para o exercício de poder das plataformas. “É um poder econômico, mas também político e cultural”, destaca Carlos.
O palestrante esclarece que este é um movimento com disputas e pressões, recheado de negociações recorrentes, e que não é monolítico. O que se observa com frequência é que, a partir da mídia programática, as plataformas constroem e cunham formas específicas de normatividade quando começam a negociar conceitos descritivos dessas ambiências. Isto é, noções de aplicativos ou conteúdo “family friendly”, o que leva à discussão de qual é o conceito de família; ou a partir de propostas, como diretrizes de conteúdo “advertiser-friendly”, que se tornam estruturantes para o processo de navegação e consumo de conteúdo online.
Pesquisadora e doutoranda no PPGCOM/UFMG, Natália Dias participou da palestra com a apresentação do artigo “Not Safe for Google”: negociando políticas de abertura a partir das lógicas tecnoeconômicas das plataformas infraestruturais, publicado em coautoria com D’Andrea em 2025 na revista Contracampo. O texto é um estudo de caso da wiki multifandom TV Tropes e do histórico de tensões do site com a Google AdSense. Natália afirma que o caso dá abertura para discutir as normas e as práticas de banimento e moderação de conteúdo exercidas pela Google, considerando que a discussão vai além do que é aplicado internamente pela wiki, e alcança uma camada de transparência, ou da falta dela, em como a moderação da plataforma incide sobre os conteúdos dos sites.
Carlos complementa a fala de Dias ao apontar que “os sistemas de moderação operam em literalidade de palavras-chave e imagens, e determinam de maneira sumária o que é e o que não é, a partir de um sarrafo colocado de maneira restritiva”. Isso expõe como a dimensão ontológica apresentada pela Google, e diferentes plataformas, pode ser monolítica na moderação de conteúdo e ferir o ideal de abertura proposto por modelos de sites autogovernáveis como as wikis.
O professor finaliza a participação no Condado ao refletir sobre como as materialidades das plataformas são constituidoras de dinâmicas informativas, ou desinformativas, e que eventualmente dão luz a controvérsias existentes nas práticas de moderação e desmonetização de conteúdos a partir das normatizações determinadas pelos sistemas infraestruturais, como o do Google. D’Andrea destaca que são regras que funcionam de forma diferente para cada tipo de site, o que torna imprescindível o pensar que “o que é desinformativo é a dinâmica do processo e não o conteúdo em si” em estudo de casos similares, além de ser fundamental considerar as marcas materiais dos artefatos de acordo com a sua origem (pensando em fóruns, por exemplo) e a sua temporalidade.
Próximo encontro
No dia 8 de outubro, às 14h, o Condado Lab recebe João C. Magalhães, professor sênior e codiretor do grupo de pesquisa sobre Confiança e Segurança em IA da Universidade de Manchester, no Reino Unido, e pesquisador associado do Instituto Weizenbaum, em Berlim.
Sua pesquisa concentra-se no poder das Big Techs e de suas plataformas. Atualmente, João lidera um estudo de quatro anos sobre a história da moderação de conteúdo, financiado por uma bolsa do governo holandês. É mestre e doutor pela London School of Economics (LSE).