Leituras 2026.1: IA, geopolítica e slopaganda
Condado Lab
|8 de março de 2026
O grupo de leituras do Condado Lab inicia o primeiro semestre de 2026 com uma pauta centrada nos impactos da inteligência artificial sobre a comunicação. A seleção de textos parte de uma premissa: não é possível compreender a IA generativa sem situá-la nas disputas geopolíticas e nas assimetrias de poder que organizam o desenvolvimento tecnológico global.
Imperialismo e infraestrutura
A leitura central do semestre é o livro Silicon Empires, de Nick Srnicek. O autor argumenta que a corrida pela IA não é apenas uma disputa tecnológica, mas um conflito entre impérios digitais que reorganiza relações de poder entre Estados e corporações. Srnicek mostra como a concentração de infraestrutura computacional, dados e talento em poucas empresas e países produz novas formas de dependência e subordinação, com implicações diretas para o Sul Global.
Essa perspectiva é complementada por Paola Ricaurte Quijano, que analisa as montagens algorítmicas de poder e os danos da IA a partir da questão da responsabilidade. Ricaurte situa os sistemas algorítmicos em estruturas coloniais e extrativistas, mostrando como os custos da automação recaem de forma desigual sobre populações marginalizadas.
IA, guerra e geopolítica
O artigo de Raluca Csernatoni e colegas, publicado na Minds and Machines, examina as relações entre inteligência artificial, geopolítica e guerra. O texto desmonta mitos sobre a autonomia dos sistemas de IA em contextos militares e propõe repensar agência e poder no campo das relações internacionais. Trata-se de uma leitura fundamental para entender como a IA se insere em projetos de segurança e defesa que ultrapassam o campo da comunicação, mas o atravessam de modo decisivo.
Jornalismo e IA generativa
Seth Lewis e colegas oferecem uma análise institucional dos desafios da IA generativa para o jornalismo. O artigo identifica como a produção automatizada de conteúdo reconfigura as rotinas jornalísticas, os modelos de negócio e a própria noção de autoria. É uma leitura que articula a discussão sobre IA com os debates do grupo sobre plataformização e economia da atenção.
Slopaganda e vernaculares digitais
Duas leituras da Winter School 2026 do Digital Methods Initiative, da Universidade de Amsterdã, tratam de fenômenos emergentes no ecossistema informacional. O conceito de slopaganda — propaganda computacional de baixa qualidade produzida em escala por IA generativa — é analisado em suas dimensões estéticas, políticas e técnicas. Os materiais abordam também a genealogia dos gêneros de conteúdo gerado por IA e os vernaculares visuais que circulam em plataformas de vídeos curtos e redes sociais.
Esses textos conectam-se diretamente à agenda de pesquisa do grupo sobre desinformação, moderação de conteúdo e práticas extremistas, ao investigar como a automação da produção de conteúdo transforma os regimes de visibilidade nas plataformas.
Lista de leituras
- SRNICEK, Nick. Silicon Empires: The Fight for the Future of AI. John Wiley & Sons, 2025.
- LEWIS, Seth C. et al. Generative AI and its disruptive challenge to journalism: An institutional analysis. Communication and Change, v. 1, n. 1, p. 9, 2025.
- DIGITAL METHODS INITIATIVE. Winter School 2026: POV, Slopaganda, Compression & Vernaculars. Amsterdam: University of Amsterdam, 2026.
- DIGITAL METHODS INITIATIVE. Winter School 2026: Slopaganda & Genre Genealogy. Amsterdam: University of Amsterdam, 2026.
- RICAURTE QUIJANO, Paola. Algorithmic assemblages of power: AI harm and the question of responsibility. Teknokultura, v. 22, n. 2, 2025.
- CSERNATONI, Raluca et al. Myth, power, and agency: Rethinking artificial intelligence, geopolitics and war. Minds and Machines, v. 35, n. 3, p. 37, 2025.